Nenhum relacionamento de Isadora durou mais de um mês. Ela gostava de deitar na cama e passar horas em silêncio, inerte, olhando fixamente para a janela de seu mundo fantástico. Gostava da perspectiva que criara de um mundo melhor. Isadora procurava companhia pra assistir a felicidade na janela, de mãos dadas naquele mundo multicolorido.
O problema é que ela nunca achou alguém que visse além daquele muro cinza de concreto.
Ela vendia filosofia de Calçada, mudava pedaços de algumas poucas vidas e ia embora. Nunca encontrou ninguém que fizesse o mesmo por ela.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Noites Raras
Aquele olhar, ela já conhecia bem.
-Tão sugestivo.
Carinhos decretos.[tão bons quanto carinho escancarado].
-Que cheiro bom moço.
-O cheiro do perfume?
-Não, bem melhor. O teu.
sábado, 26 de janeiro de 2013
Não sou eu, é você.
Você sentou do meu lado e eu fingi que não notei sua presença. Encostei minha cabeça na janela para tentar disfarçar minha inquietude. "Deveria estar na aula de Matemática", pensei. Usava meu brinco de penas e no momento em que seus olhos percorreram minhas pernas desejei estar vestindo um shorts menos revelador.
No entanto, logo que fui procurar por meu iPod para me desconectar deste mundo caótico, você me pôs no chão. Nas poucas palavras que usou, me passou confiança e naturalidade.
"Respeito", você disse inúmeras vezes. Mas bem que gostava dos nossos beijos quentes embaixo do MASP, não é? Entretanto, sempre ficava aquela sensação de que faltava alguma coisa. E esta "alguma coisa" tinha uma definição bem diferente para cada um de nós.
Você queria que eu usasse aquele par de calças pretas com mais frequência. Afinal, elas permitiam que você sentisse mais detalhadamente o meu corpo. Agora, injusto é confessar que eu raramente sentia arrepios. Triste é o pesar que me dava ao te ligar e escutar as conversas de fundo. Incerto é o porquê de experimentar tantas camisas e nunca comprar uma, mesmo que esta fosse a prova de café. Pior é que ao sentir o seu deleite escorrendo em minha mão, tive que fingir que no meu peito também havia suspiros.
Quanto a mim, não sei bem o que procurava. Acho que talvez um pouco de diversão, conhecer pessoas novas ou só uma pitada de ousadia. Sinceramente, eu sinto muito se te feri. Você é um cara legal. Não canso de repetir isso, porque é verdade. Mas esses encontros estavam indo para uma direção errada e eu não gosto de criar ilusões.
Em uma situação desta, a qual eu fujo, chego a parar e pensar: Parece que tenho medo de ser feliz. Mas depois a cabeça esfria. Pois isso não cabe neste caso. Afinal, o que me conforta é saber que felicidade seria algo que dificilmente conseguiria ter com você.
Nu e cru.
Pela primeira vez eu atendo o sussurro que ecoa em minhas nuvens: Não pense, só seja. Porque chega um momento em que o saudável é não ficar dependendo de condições e planos.
Finalmente sinto a liberdade para viver.
Eu quero o calor,
O sabor,
A fragrância,
Os delírios e
As mentiras.
E tudo isso você pode me oferecer...
Então "por quê não?", pergunto-me.
Você não se tornou presente no meu mundo onírico, tão pouco foi impactante como o que me fez derrubar rios de lágrimas vermelhas. Mas de vez em quando deparo-me sorrindo em momentos inesperados e isso é bom sinal.
Bem que eu poderia romantizar a situação toda, mas prefiro deixar assim: Real e sem mistificações.
Pois de idealizações e expectativas anormais, minha vida já está mais que saturada.
sábado, 22 de dezembro de 2012
Eu ia te escrever qualquer dia,
eu tinha — e tenho — um monte de coisas pra te dizer, aquelas coisas que a
gente cala quando está perto porque acha que as vibrações do corpo bastam,
ou por medo, não sei. Mas as coisas todas, externo-interno, eram muito difíceis
e escuras, eu não tinha condições de mostrar ou dar nada a ninguém que não
fosse também escuro, compreende? Eu não queria, eu não quero dar trevas,
dor, medo, solidão — eu quero dar e ser luz, calor, amparo.
Vez por
outra, entre o desespero e o juízo, torna-se complicado e cruel distinguir o
que fora amor e o que não passou de poeira varrida para debaixo do tapete que
sangra, sofre, perdoa e se vinga. Vez por outra, o frio não passa de saudade e
a saudade não passa de janelas abertas em dias de inverno ou solidão. Para quem
bebe no copo meio cheio é quase indolor vê-lo transformando-se em algo meio
vazio. Desconhecer é o primeiro passo de um tabuleiro cujo fim não passa de um
novo começo. É nos momentos de loucura que a ausência quer ser racional,
fazendo o nada transformar-se em puro pessimismo e preguiça de viver. Inviável
saber o que são borboletas, libélulas, anjos e demônios, se todos têm asas e
vida curta. Inviável, contudo, é permanecer no engano quando os pés imploram
por uma sabedoria um pouco mais concreta que o ar. A falta do plural acomoda
camas, livros, bebidas quentes e insônia. A falta de si mesmo acomoda plurais
no mundo inteiro, fazendo do outro nada mais que uma necessidade. Isso são
entrelinhas, caminhos, destinos, acasos, estradas de terra e água de concreto
que escorre pelos olhos. Ironias. O que é belo, não precisa ser sublime. O que
é confuso, não precisa se feio. O que é concreto, não precisa ser real. O que é
desconhecido, não precisa ser estranho. Isso é amor, que não cabe na paixão,
que não sabe se é feliz porque simplesmente não conhece a tristeza. Ser amante,
ser errante, ser humano é necessitar de tudo e não precisar de nada.
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